Manifesto

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Manifesto primitivo 

Disse Maurice Godelier: “O único método para apressar o desaparecimento dum vocábulo ou de um modo de pensar é denunciar-lhe as contradições”; depois de dizer: “Pode proibir-se o uso das palavras, mas isso não suprime os pensamentos, o pensamento” (1995: 136).

O conceito primitivo é hoje um conceito proscrito do léxico antropológico. Foi execrado como resto impuro da voragem reflexiva dos estudos pós-coloniais, foi acusado de heresia hierarquizante e de ser o criador de clivagens insuportáveis entre o investigador – homem, branco e ocidental – e o seu objecto – primitivo. Não foi o vocábulo, foi o pensamento ele mesmo. Ao deliberar-se-lhe o eterno exílio (ao vocábulo) não se aboliu o pensamento que lhe havia arqueado as costas desde os tempos do tempo evolucionário.

Não há exílios que sejam eternos, eternos são os retornos. E se o pensamento eternamente retorna às antigas hierarquizações e se sempre haverá inexoráveis clivagens, ao menos aos fantasmas que o assombram – ao primitivo – conhecemo-los já suficientemente bem para que os continuemos ainda a temer; apenas temos que estar atentos a qual novo outro assombram eles hoje. Mais, caberá ao próprio, ao primitivo, ajudar a esclarecer o como e o porquê. E é esse o nosso manifesto – uma vez proscrito ele será desta o retornado.

Passando por cima dos delírios evolucionistas de Tylor, Morgan et aal – a crítica pós-colonial já neles desancou e muito – retomamos outras concepções que nos servirão de marcos do nosso caminho (milestone – “a stone on the side of the road…”), nomeadamente aquelas que tomam a noção de primitivo como origem ahistórica das classificações e em particular, porque já não há primitivos, das nossas classificações.

Fetichização e ambiguidade. Marx e Freud na senda do primitivo.

Apesar de ter dedicado O Capital a Darwin, Marx ultrapassa a linearidade cumulativa do progresso ao fazer coincidir em todas as formas que o atravessam um elemento original ahistórico – o feitiço que torna cabível a alienação da força de trabalho de um homem por outro homem; seja o poder transcendental do rei sagrado ou o poder financeiro do proprietário industrial o feitiço dissimula no social o mal-estar primitivo da verticalização das relações sociais. O mui primitivo feitiço é assim a nossa primeira milestone.

Da mesma maneira Freud, ultrapassando o aspecto cumulativo do progresso civilizacional, coloca no âmago do mal-estar da civilização uma angústia comum também à sociedade primitiva: a ambiguidade das instituições que, produzidas idealmente para racionalizar e dissimular as tensões relacionais (entre gerações, entre sexos, entre os grupos…) não aniquilam o sofrimento produzido pelo simples facto social.

Lévi-Strauss e o pensamento no estado selvagem.

Le propre de la pensée sauvage est d’être intemporelle ; elle veut saisir le monde, à la fois, comme totalité synchronique et diachronique et la connaissance qu’elle en prend ressemble à celle qu’offrent, d’une chambre, des miroirs fixés à des murs opposés et qui se reflètent l’un l’autre (ainsi que les objets placés dans l’espace qui les sépare), mais sans être rigoureusement parallèles. (…) La pensée sauvage approfondit sa connaissance à l’aide d’images mundi. Elle construit des édifices mentaux qui lui facilitent l’intelligence du monde pour autant qu’ils ressemblent. En ce sens, on pu la définir comme pensée analogique.

Mais en ce sens aussi, elle se distingue de la pensée domestiquée, dont la connaissance historique constitue un aspect. (…) elle cherche à surmonter une discontinuité originelle en reliant les objets entre eux. Mais c’est cette raison, entièrement occupée à réduire les écarts et à dissoudre les différences, qui peut être à bon droit appelée «analytique».

Lévi-Strauss 1962: 348-349

Assim, Lévi-Strauss retira às sociedades exóticas o monopólio da mentalidade primitiva (Lévy-Bruhl) – o pensamento selvagem é nosso!

A louca da casa. O sapiens-demens e a hipercomplexidade. Edgar Morin.

Agora que entrámos em posse do pensamento selvagem falta ligá-lo ao pensamento domesticado – é o que faz Edgar Morin:

(…) somos obrigados a procurar qualquer ligação consubstancial entre o Homo faber e o homem mitológico; entre o pensamento objectivo-técnico-lógico-empírico e o pensamento subjectivo-fantástico-mítico-mágico; entre o homem propositado, capaz de autocontrolo, da dúvida, da verificação, da construção, da organização, do acabamento ou finição (finishment), e, por outro lado, o homem despropositado, inconsciente de si mesmo, descontrolado, inacabado, destruidor, iluminado por quimeras, temerário; entre, por fim, a expansão conquistadora do sapiens, a sociedade cada vez mais complexa, e, por outro lado, a proliferação das desordens e dos delírios…

(…) precisamos de sobrepor à cara séria, trabalhadora, aplicada, do Homo sapiens a cara simultaneamente diferente e idêntica do Homo demens. O homem é louco-sensato. A verdade humana comporta o erro. A ordem humana comporta a desordem. Por consequência trata-se de averiguar se os processos da complexidade, da invenção, da inteligência, da sociedade, se efectuaram apesar, com ou por causa da desordem, do erro, da fantasia. E nós responderemos que foi ao mesmo tempo por causa, com e apesar, visto que a resposta adequada só pode ser complexa e contraditória.

Morin 1973: 110-111

Somos afinal hipercomplexos – a um tempo racionais e dementes, selvagens e domesticados, civilizados e primitivos.

O que é próprio da hipercomplexidade é precisamente a diminuição das restrições num sistema de desordem permanente, constituído pelo jogo das livres associações aleatórias.

Idem: 119

A louca da casa é a imaginação. Segue-se a sua fonte…

um, o dois e o três primordiais. Turner e a origem primitiva do símbolo.

I would postulate that the human organism and its crucial experiences are the fons et origo of all classifications. Human biology demands certain intense experiences of relationship. If men and women are to beget and bear, suckle, and dispose of physical wastes they must enter into relationships – relationships which are suffused with the affective glow of the experiences. (…) It needs two to copulate, two to suckle and wean, two to fight and kill, and three to form a family. The multitude of interlaced classifications that make up ideological systems controlling social relationships are derivatives, divested of affectual accompaniments, of these primordial twos and threes. (…) Though immanent in his body, they appear to transcend his consciousness. By representing these “forces” or “strands of life” by color symbols in a ritual context, men may have felt they could domesticate or control these forces for social ends, but the forces and the symbols for them are biologically, psychologically, and logically prior to social classifications by moieties, clans, sex totems, and all the rest.

Turner 1970 (1967): 90

Seria difícil ser-se mais primitivo. A origem primitiva de todas classificações está no corpo e nas relações primordiais – os dois e os três primordiais. Falta o um – o estado de communitas.

Se a cultura (o feitiço) dissimula e controla as diferenças sociais (as hieraquias) a comunidade produzida na diferenciação precisa de afirmar o seu sentido de unidade – precisa de lidar com a ambiguidade de ser una e, simultaneamente, internamente diferenciada. À estrutura deve assim corresponder uma anti-estrutura na qual os membros da comunidade se reconhecem como iguais – ciclicamente, de forma espontânea ou institucionalizada, i.e. a partir do interior da estrutura, a estrutura deve dissolver-se para se reestruturar. Ao estado de dissolução da estrutura Turner chamou communitas. É o que acontece nas revoluções (a forma espontânea), ou no “período eleitoral” – votamos em igualdade para que se justifique a diferenciação.

A recusa do Uno. Pierre Clastres e A Sociedade contra o Estado.

(…) o que nos mostram os Selvagens é o esforço permanente para impedir os chefes de ser chefes, é a recusa da unificação, é o trabalho de conjuração do Uno, do Estado. A história dos povos que têm uma história é, segundo se diz, a história da luta de classes. A história dos povos sem escrita é, dir-se-á pelo menos com a mesma verdade, a história da sua luta contra o Estado.

Clastres 1979 (1974): 211

A lição de Clastres serve tanto para a sociedade primitiva quanto para a sociedade de classes – o que ultrapassa essa dimensão, o que há de primitivo na lição de Clastres é a enorme tendência centrífuga da sociedade face ao poder centrípeto do Estado. Outra lição é uma chamada de atenção para a maneira como do interior da sociedade se desmascara a divisão interna entre sociedade e Estado – no poder estão “eles” não “nós” – “o que eles querem é tacho!”.

O político, a política e a religião. Régis Debray.

Le mausolée de la place Rouge survivra au léninisme : les mausolées sont fait pour durer (celui d’Halicarnasse : vingt siècles), les ismes pour passer. Ce qui passe ne peut-il se passer d’un quelque chose qui fait durer, et traverse les époques en les habitant toutes? A porter l’intérêt du grand nom propre au petit substantif, ne serait-on pas déjà sur la piste d’un rapport invariant et nécessaire unissant le Multiple à l’Un fondateur, et la série à un terme premier? Au regard d’une science politique fondamentale, il y a peut-être moins d’information à tirer des embaumés que de l’embaumement lui-même, rituel qui permet en conservant les corps de faire durer les âmes des dieux-vivant après leur mort ; et dont la permanence, attestée à travers l’espace et le temps par-delà les croyances sociales et les stades du développement technique, suppose quelque continuité entre les Soviets électrisants et le Rameau d’or des royautés antiques.

Debray 1981: 17-18

Se o político corresponde a uma ideia universal e natural de bem-estar social (i.e. a uma maneira “ideal” de organizar as diferenças) a política enquanto praxis desse ideal não difere da praxis religiosa. De uma imanência natural aparecem, no social, as mesmas formações transcendentes (o rei sagrado), as mesmas formas rituais (a mumificação de Lenine), as mesmas formas de organização da amnésia social (as histórias nacionais), o mesmo estado de permanente incompletude (os impérios), a mesma necessidade de inscrição (o território sagrado da pátria).

Assim, o primitivo aplica feitiços a tudo, é ambíguo, analógico, é muito complicado e muito despropositado mas basta-se a si próprio e aos seus para se explicar, quer ser diferente entre iguais, quer ser livre mas prefere obedecer e, para que se justifique o paradoxo, transcende-o.

Para além dos marcos nas bermas há as pedras na estrada. E há marcos que não vemos. Há marcos que nos obrigam a voltar para trás para podermos prosseguir e há marcos além, para lá da curva na estrada e que ainda não podemos ver. Havemos de lá chegar para descobrir que isto nunca acaba; entretanto, seguimos à boleia do primitivo. E bem acompanhados…

fcruz, novembro de 2007.

Referências:

CLASTRES, Pierre, 1979 (1974), A Sociedade contra o Estado. Investigações em antropologia política, Porto, Afrontamento.

DEBRAY, Régis, 1981, Critique de la raison politique, Paris, Gallimard.

FREUD, Sigmund, 1969 (s/d), O mal-estar na civilização, RJ, Imago.

GODELIER, Maurice, 1995, “Primitivo” in Enciclopédia Einaudi, vol.28. Produção/distribuição – Excedente, INCM: 129-144.

LÉVI-STRAUSS, Claude, 1962, La pensée sauvage, Paris, Plon.

MORIN, Edgar, 1973, O Paradigma Perdido: a natureza humana, Mem Martins, Europa-América.

TURNER, Victor W., 1970 (1967), The Forest of Symbols. Aspects of Ndembu Ritual, Ithaca and London, Cornell University Press.

– 1969, The Ritual Process. Structure and Anti-Structure, London, Routledge & Keagan Paul.  



  1. [...] Excerto do final do nosso manifesto [...]

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