The blood path. Chris Knight’s myth of origin

Blood Relations. Menstruation and the Origins of Culture

No decorrer já não sei de que aula do curso de antropologia, já la vai algum tempo, já não sei a que propósito, lançou o docente aos alunos o seguinte repto: vocês têm de pensar muito bem de que se trata a vossa antropologia - trata-se de descrição? [etnografia]; trata-se de interpretação? [antropologia interpretativa]; trata-se de literatura? [antropologia pós-moderna]; ou trata-se de fazer ciência? A resposta que não me sai da cabeça desde então é: trata-se de fazer política.

De uma forma simplificada, a resposta “fazer política” serve também de cobertura a todas as outras - descrever, interpretar, resolver a intelegibilidade de um texto, formular uma teoria, são transformados em instrumentos, ferramentas para fazer política. Porquê? Porque os antropólogos ao formularem teorias sobre a cultura e a ligação da cultura à gestão dos problemas gerados na estruturação social establecem-se a si próprios e às próprias teorias que formulam num locus contra-hegemónico especialmente previligiado na desconstrução de estereótipos (construções do senso-comuns sobre o “outro”) e na elucidação dos mecanismos que os produzem. Ao formular teorias gerais sobre a cultura a antropologia põe-se em posição para revelar a quais poderosas forças sociais gerais a imensa variação das culturas procura o controlo. A mais valia imediata deste locus é, por exemplo, intermediar a relação entre Estado/políticas de emigração e os emigrantes e, por força do seu poder desconstrutivo e pelo lado dos emigrantes, denunciando os abusos, os atropelos e as tensões inter-culturais.

Mas não é disso (ou é?) que queria falar aqui. A antropologia como instrumento político. Sim, era isso. Isto porque, ao sabor do surf, dei com esta curiosa primeiro, aparentemente rebuscada depois e, finalmente, extremamente interessante, teoria.

Menstruation and the origins of culture. Isso mesmo! Diz a dita teoria que a menstruação, um facto biológico, por força de uma revolução social de base feminista (ou, pelo menos, a partir dos interesses particulares das proto-mulheres), esteve, originalmente, na origem da cultura e do primeiro elemento de cultura simbólica: a cor vermelha ligada ao sangue ligado à menstruação. A teoria é reivindicada pelos antropólogos darwinistas, ligados à University of East London, Chris Knight, Camilla Power e Ian Watts.

Sem querer aqui explicar toda a argumentação dos autores, vou tentar expor sucinta e esquematicamente os dados principais da mesma apenas para acicatar a curiosidade (no final encontrarão as referências todas que quizerem):

Dois factos biológicos, singulares na natureza, acerca da sexualidade feminina : 1. menstruação em vez de estro; 2. sincronização da ovulação (evolutivamente possível pela formação sistemática de coligações femininas).

Consequências para a estruturação social: impossibilidade de um sistema social do tipo macho alpha; gestão feminina (através de solidariedades de género) da sexualidade do grupo - troca de sexo por caça; matriarcado; matrilinearidade.

Estratégias simbólicas: manipulação feminina (das coligações de mulheres) dos sinais da sua sexualidade; amplificação e publicitação dos sinais através do uso cosmético da cor vermelha (ocre vermelho).

São estes os elementos principais desta teoria. Mas não foi acerca da teoria em si que resolvi escrever; foi o princípio político a partir do qual começou a sua formulação.

Rapidamente. No ano de 1989, Donna Haraway escreve Primate Visions: Gender, Race, and Nature in the World of Modern Science em que classifica as mais consentâneas teorias sociobiológicas como mitos de origem tecidos a partir de uma luta pelo poder (branco e masculino e, outrossim, conformes ao ambiente político do capitalismo tardio). O Imperativo Territorial, O Gene Egoísta, O Homem Caçador - A Mulher Recolectora, todas teorias que fazem corresponder na biologia os paradigmas do individualismo, do agenciamento, da racionalidade das escolhas económicas, etc… A partir destas considerações, Chris Knight propõe-se levá-las até ao fim das suas consequências e formula um novo mito de origem, também ele tendo por referência os mesmos paradigmas mas escolhendo um outro ponto de partida, política e explicitamente escolhido - feminista e comunista. E assim começa uma saga que tem então fim na obra Blood Relations. Menstruation and the Origins of Culture e nesta aparentemente rebuscada teoria sobre a origem da cultura. Uma teoria sobre a luta feminina pelo controlo dos meios de produção social (sexualidade reprodutiva), sobre a estratégia coligacional de interesses de classe (de género, feminista), sobre o mecanismo da greve (sexual) para impor uma maioria de razão, sobre o poder transformador das revoluções e sobre como a origem da cultura, a origem da cultura simbólica, foi possível a partir e só, de um movimento revolucionário emancipatório.

A teoria da menstruação na origem da cultura é um mito. Explicitamente mitológica. Explicitamente comunista e feminista. Mas não menos coerente que qualquer das que lhe predecedem e com a vantagem de ser coerentemente explícita. E foi isso que me interessou nela e é por isso que ela interessa aqui.

Haveremos ainda de continuar a cavalgar esta onda e por isso este é o primeiro que há de compor um dossier em construcção a que chamo The Blood Path e em que se incluém ainda os antropólogos da Radical Anthropology Group dos quais iremos dando notícia. Tudo começou por aí e pelo panfleto de David Graeber: Fragments of an Anarchist Anthropology editado online pela Prickly Paradigm Press de Marshall Sahlins. Como veêm tudo se conjuga. Só fica a faltar a ligação ao Rei Sagrado e deste a Régis Debray. A ver vamos.

Entretanto ficam as referências.

Para uma breve introdução ver:

AA.VV., 2006, “Menstruation and the origins of culture” [artigo originalmente publicado como entrada na Wikipedia, posteriormente publicado online pelo RAG]

BRADDEN, Edmund, 2006, Chris Knight’s theory of human origins. An abridge account, London [publicado online].

Essenciais:

HARAWAY, Donna, 1989, Primate visions : gender, race, and nature in the world of modern science, New York, Routledge. [ICS - A.C. - 406]

KNIGHT, Chris, 1991, Blood Relations. Menstruation and the origins of culture, New Haven and London, Yale University Press. [FCSH - CS 6718]

KNIGHT, Chris, POWER, Camilla, and WATTS, Ian, 1995, “The human symbolic revolution: A Darwinian account” in Cambridge Archeological Journal. 5:1 : 75-114. [publicado online]

Complementares:

DAWKINS, Richard, 1988, The selfish gene, London, Paladin. [ICS - S.M. - 127]

HOGBIN, I. A., 1970, The Island of Menstruating Men, Scranton, London and Toronto, Chandler.

McCLINTOCK, M. K., 1971, “Menstrual synchrony and suppression” in Nature 229 : 244-5.

SAHLINS, Marshall, 1960, “The origin of society” in Scientific American 203 (3) : 76-87.

TURKE, Paul W., 1984, “Effects of ovulatory concealment and synchrony on protohominid mating systems and parental role” in Ethology and Sociobiology 5 : 33-44.

Sites de referência:

Radical Anthropology Group

Chris Knight’s webpage


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