Contra o “primitivismo” (de Jonh Zerzan)

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Demasiadas vezes, ao dar a conhecer este blog a amigos, à ideia de “sociedade primitiva” é associado o programa político de Jonh Zerzan - o “primitivismo”. Ao indagar porquê a associação lá me vão explicando o dito “primitivismo” como edifício político alicerçado, entre outros tijolos, numa série de elementos etnográficos recolhidos entre sociedades “anteriormente conhecidas como primitivas” ou, se quizerem, neolíticas, ou ainda, acéfalas… e, diz-se, que a partir desses elementos se justifica uma proposta revolucionária de retorno a uma sociedade pré-tecnológica e pré-simbólica e, por isso, não-dividida, não-alienada, ecológica, etc. Pois, lá fui ver a propósito da tradução portuguesa de Future Primitive [ZERZAN, Jonh, 2007 (1994), Futuro Primitivo, Porto, Deriva.]…

Confesso que li o livro na diagonal e que muito provavelmente saio enganado, mas devo dizer que a leitura não me cativou, nem pouco, nem mais, nem menos. De qualquer maneira…

Parece-me (posso me enganar porque, como disse, li o livro na diagonal) que o livro elenca uma série muito dispersa de elementos etnográficos, arqueológicos, paleoantropológicos, entre outras referências, aparentemente fora de contexto e parciais tendo sempre como objecto a demonstração da deriva civilizacional, acente no progresso tecnológico, na cultura simbólica e num conceito de contra-natura desse processo civilizacional, para depois os arrumar caprichosamente ao sabor da conveniência do argumento exigido para levar avante o projecto do autor, a saber - acabar de vez com a cultura simbólica, negar que as relações de poder estão no âmago da sociedade e retornar ao “homem natural”, ecologicamente harmónico, incorruptível, feliz (lembram-se do bom-selvagem rousseauniano?). Arrumado o argumento, Zerzan termina em delírio no paraíso Mbuti “e da sua maneira de dançar como se fizessem amor com ela [a floresta]. Na fímbria de uma vida onde todos os seres são iguais, onde não existia nenhuma abstracção e que se esforça ainda por manter-se viva, eles «dançam com a floresta, dançam com a lua».” Muito bonito. Vejo com agrado que Zerzan, apesar do esforço, precisa ainda (e sempre) de engendrar bonitas imagens simbólicas para nos convencer que o mundo pré-simbólico é que é lindo. Estava com medo que acabasse o livro num quadro de retorno ao frio instinto. Uf!

Zerzan tem razão. O Homo nasce na emergência da cultura simbólica, na alienação, na divisão social do trabalho, no uso desmesurado da tecnologia e dos recursos naturais, na deriva civilizacional… Nasce contra-a-natureza, mas nasce também em conflito consigo mesmo e com as coisa com que nasce. O Homo é um ser desmesurado que põe em perigo o mundo que o viu nascer. É verdade (parece ser). Mas Zerzan é Homo e “os primitivos” também.

Aqui trata-se desse “também”. Zerzan procura uma ruptura de substância que separe o homem-natural do homem-desnaturado para que se justifique “retornar à Natureza”. Mas esse “estado natural” que Zerzan procura está já minado de símbolos, de estruturas, de poder. Não há nada que nos separe dos “primitivos” que não seja uma questão de grau. É essa questão de grau que resulta no problema exposto por Zerzan (e nisso tem ele toda a razão) mas as derivas estão lá como estão cá, se existisse “lá” e “cá”. Não há. Somos Homo. A sociedade primitiva somos nós, com cultura simbólica e tudo.

Para o seguimento do assunto remeto para o post no Sismógrafo e para as ligações a ele associadas.


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