I Encontro de Antropologia do Norte de Portugal e da Galiza

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Só a forma é nova. A antropologia (sempre de braço dado com a história) do norte de Portugal e da Galiza já se encontram há algum tempo. E encontram-se porque as fronteiras sempre foram tanto a linha que divide como a zona de contacto, das trocas e das oportunidades (veja-se a mais-valia do contrabando até à abertura alfandegária). E isso interessa muito a um e a outro lado. Trazer à tona as divisões e as partilhas traz também força, seja no plano do desenvolvimento regional seja no plano de engrossar a voz quando se quer fazer ouvir o clamor da memória espartilhada - e a antropologia e a história galegas gravitam muito em volta deste acordar da memória. Do lado transmontano tem sido a importância para as populações raianas da capitalização da memória cultural (patrimonialização) enquanto saída para a desruralização brutal a que estiveram sujeitas desde os anos 50. Os estudos etno-históricos nestas zonas raianas têm tanto de interesse académico como de interesse prático para as populações no sentido em que trazem consigo o feitiço de catapultar elementos culturais em declíneo para um plano mais elevado de valorização patrimonial e de alavanca do desenvolvimento económico.

Falo disto por experiência. No natal de 2006 tive a oportunidade, como todos os estudantes do curso de antropologia da fcsh têm desde há 25 anos, de fazer um pequeno trabalho de campo, no nosso caso, numa aldeia mais ou menos remota (muito romântica) da zona raiana do concelho de Vinhais - Montouto. O objectivo de partida era estudar relações de fronteira e em particular o papel do contrabando no passado e a sua imagem no presente das populações. O contacto com o terreno havia de nos apontar outros caminhos. Deparou-se-nos um cenário de forte desertificação humana e uma desvalorização do património aldeão pelos próprios habitantes em contraste com as aldeias vizinhas onde, por altura das festas, o ambiente era de reforço valorativo de tudo que servia o idioma identitário, seja nos bailes, nas matanças, nos rituais das máscaras agora cada vez mais revitalizados e mais abertos ao exterior, seja nos discursos e na vontade em geral de “mostar” aos de fora. Em Montouto reinava uma calma estranha. Deste trabalho resultou então uma pequena etnografia centrada nos processos de desruralização e de re-integração das populações num quadro em que o ritmo da vida aldeã é marcado alhures - no meio urbano, e numa reflexão sobre a importância que os estímulos exteriores têm num quotidiano rural em declíneo. Em Montouto esses estímulos rareavam - quem estava queria sair e quem tinha saído não voltava e com eles não voltava também o feedback valorativo da paz e da ancestralidade original e ecológica da vida no campo. Em Portugal este reflexo produzido pela urbanidade e pelo interesse académico é bem conhecido: chamamos-lhe efeito Rio de Onor.

Fica aqui o testemunho da importância pragmática que o reflexo pode ter na continuidade destas comunidades mais ou menos remotas e, acrescento na minha egocentricidade urbanita, porque gostaríamos de ver continuamente intocável a beleza agreste, o sabor da alheira e do nabo, o cheiro do porco, o frio cortante e o calor do lume e das gentes.

Um grande bem hajam a Montouto.

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Os encontros passam-se em Chaves, dias 8, 9 e 10 de Novembro, são coordenados pela UTAD e pela USC (Universidade de Santiago de Compostela) e as inscrições são gratuitas. São especialmente valiosos e potencialmente estimulantes para vós - caros colegas - que este ano embarcam na aventura transmontana, não percam!


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