a sociedade primitiva somos nós

a antropologia é tremendamente incorporativa – fiz nota numa aula. de facto, não é coisa que se deixe na academia ao fim do dia. os seus quadros de análise insistem em permanência para um outro olhar paralelo, subterrâneo – promíscua relação entre a interpretação subjectiva dos acontecimentos quotidianos e a antropologia geral dos acontecimentos particulares (a nossa antropologia). já não somos mais um que o outro – nem só seres emocionados e ideológicos nem só de olhar distanciado.

a questão é: seremos já civilizados? e para que serve a civilização? até que ponto não nos servimos nós da civilização para disfarçar o primitivo em nós? o que temos nós a esconder que o primitivo não saiba já? hipótese: nunca deixámos de ser primitivos (por deferência à ética, outro que não o primitivo não podemos nós ser). com isto quero também dizer que não há uma escala que vá de primitivo a civilizado e que o quadro de análise para um serve necessariamente para todos.

assim, e de maneira pré-científica, vamos falar de civilização em idioma primitivo. a sociedade primitiva somos nós.


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